"Eu já deveria estar mais avançado a essa altura." Seis palavras, e o seu dia inteiro muda. Não porque algo deu errado, mas porque você mediu sua vida por uma regra que nunca escolheu.
As declarações de deveria (Should Statements) são uma distorção cognitiva, um erro de pensamento que faz a realidade parecer pior do que é. Descritas pela primeira vez na Terapia Cognitivo-Comportamental (CBT) por Aaron Beck, o padrão foi depois chamado de "musturbação" na Terapia Racional Emotiva Comportamental (REBT): o hábito de transformar preferências em exigências. Eu deveria ser mais produtivo. Eles deveriam ter percebido.
Aonde isso leva
O estrago depende de para onde o "deveria" aponta.
- Para você mesmo, os deverias produzem culpa e vergonha. Você não está ficando aquém de uma meta. Você está violando uma lei.
- Para os outros, os deverias produzem ressentimento. As pessoas não seguem regras que nunca aceitaram, e você se sente traído.
- Para o mundo, os deverias produzem impotência. A realidade ignora o seu plano, e não há para quem direcionar a reclamação.
Se você reconhece esse padrão, está em boa companhia. Mas a pesquisa liga esse hábito a consequências reais: estudos usando a Escala de Distorções Cognitivas (Cognitive Distortions Scale) mostram que pessoas com pontuação alta em pensamento rígido e baseado em regras relatam mais depressão, ansiedade e sintomas obsessivo-compulsivos. Uma preferência pode se curvar. Uma exigência se parte.
A virada
A Terapia Cognitivo-Comportamental (CBT) não pede que você pare de querer coisas. Ela pede que você perceba quando uma preferência se endureceu até virar uma ordem.
- Pegue a palavra. Quando você ouvir "deveria", "tenho que" ou "preciso" no seu monólogo interno, faça uma pausa. É a distorção se anunciando.
- Reformule como preferência. "Eu deveria ter lidado melhor com isso" vira "Eu gostaria de ter lidado com isso de outra forma." O mesmo desejo, sem tribunal.
- Confira de quem é a regra. Muitos deverias são herdados: dos pais, da cultura, das redes sociais. Se a regra não é sua, se dê permissão para soltá-la.
O objetivo não é baixar seus padrões. É mantê-los sem transformar cada expectativa não atendida em um veredito.