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Quando as emoções se tornam insuportáveis

Existe um momento na dor emocional intensa em que o seu cérebro para de buscar soluções e começa a exigir alívio. Agora. A qualquer custo. Esse é o momento em…


Existe um momento na dor emocional intensa em que o seu cérebro para de buscar soluções e começa a exigir alívio. Agora. A qualquer custo. Esse é o momento em que a maioria das pessoas faz aquilo que vai se arrepender: mandar a mensagem, encher o copo, dizer o que não pode ser desdito.

Tolerância ao sofrimento (Distress Tolerance) é a capacidade de aguentar esse momento sem piorar a situação. O conceito é central na Terapia Comportamental Dialética (DBT), desenvolvida por Marsha Linehan originalmente para pessoas que vivenciam emoções avassaladoras. Mas essa habilidade é universal e pode ser aprendida.

O objetivo é contraintuitivo: não é se sentir melhor. É sobreviver ao pico sem criar uma segunda crise em cima da primeira.

Por que isso importa

Quando a tolerância ao sofrimento é baixa, o desconforto dispara uma necessidade urgente de escapar. Essa fuga assume formas previsíveis: evitação, decisões impulsivas, explosões emocionais, uso de substâncias. Um estudo sobre tratamento residencial para dependência química descobriu que pacientes com menor tolerância ao sofrimento tinham probabilidade significativamente maior de abandonar o programa antes de completá-lo. O mesmo padrão aparece na ansiedade, na depressão e no TEPT.

Isso não é um traço fixo. É uma habilidade com uma curva de aprendizado, e a DBT foi construída para ensiná-la.

Experimente isso

O kit de sobrevivência em crise da DBT usa a sigla TIPP. Cada técnica funciona mudando primeiro o estado do seu corpo, para que a sua mente possa acompanhar:

  1. Jogue água fria no rosto. Encha uma tigela com água fria e mergulhe o rosto por 15 a 30 segundos, ou segure uma bolsa de gelo contra as bochechas e a testa. Isso ativa o reflexo de mergulho dos mamíferos (Mammalian Dive Reflex), a resposta de calma embutida no seu corpo, que reduz a frequência cardíaca em segundos.
  2. Movimente o corpo com intensidade. Corra, faça polichinelos ou suba escadas por dois a três minutos. O esforço intenso queima a adrenalina que alimenta o pensamento de crise.
  3. Expire por mais tempo do que inspira. Inspire por quatro tempos, expire por seis a oito. A expiração prolongada sinaliza ao seu sistema nervoso para se acalmar.
  4. Tensione e solte. Aperte os punhos, os braços ou os ombros por cinco segundos, depois solte completamente. A liberação diz ao seu corpo que a ameaça passou.

Aceitação radical

A outra metade da tolerância ao sofrimento é a aceitação radical (Radical Acceptance): reconhecer o que está acontecendo sem insistir que não deveria ser assim. Isso não é aprovação nem rendição. É escolher não gastar energia lutando contra a realidade enquanto você já está sofrendo.

Nenhum estado emocional, por mais insuportável que pareça, permanece no pico de intensidade. As emoções sobem, atingem o auge e descem. Tolerância ao sofrimento é a habilidade de se manter à tona até que a onda quebre.

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Referências

  1. Linehan, M. M. (2015). DBT skills training manual (2nd ed.). Guilford Press.
  2. Daughters, S. B., Lejuez, C. W., Bornovalova, M. A., Kahler, C. W., Strong, D. R., & Brown, R. A. (2005). Distress tolerance as a predictor of early treatment dropout in a residential substance abuse treatment facility. Journal of Abnormal Psychology, 114(4), 729–734. https://doi.org/10.1037/0021-843X.114.4.729
  3. Simons, J. S., & Gaher, R. M. (2005). The Distress Tolerance Scale: Development and validation of a self-report measure. Motivation and Emotion, 29(2), 83–102. https://doi.org/10.1007/s11031-005-7955-3
  4. Neacsiu, A. D., Rizvi, S. L., & Linehan, M. M. (2010). Dialectical behavior therapy skills use as a mediator and outcome of treatment for borderline personality disorder. Behaviour Research and Therapy, 48(9), 832–839. https://doi.org/10.1016/j.brat.2010.05.017