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Quando os pensamentos perdem a força

"Eu não sou bom o suficiente." Diga uma vez e soa como um veredicto. Diga quarenta vezes rápido e algo estranho acontece: as palavras se borram e viram ruído…


"Eu não sou bom o suficiente." Diga uma vez e soa como um veredicto. Diga quarenta vezes rápido e algo estranho acontece: as palavras se borram e viram ruído. A carga emocional se esvai. O pensamento ainda está lá, mas perdeu sua autoridade.

Se você já se sentiu preso por um pensamento que não conseguia rebater, essa mudança vale a pena ser entendida.

A defusão cognitiva (Cognitive Defusion) é uma técnica central da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). O conselho usual para um pensamento difícil é questioná-lo: Isso é mesmo verdade? Onde estão as provas? A defusão pula a discussão inteiramente. Ela não pede que você mude o que pensa. Pede que você mude a forma como se relaciona com o que pensa.

Por que os pensamentos ficam grudados

A ACT chama o estado padrão de fusão cognitiva (Cognitive Fusion): quando um pensamento e sua reação a ele ficam tão entrelaçados que o pensamento parece realidade. "Eu sou um fardo" deixa de ser uma frase e se torna algo que você sente no corpo. Suas decisões seguem o mesmo caminho. Isso não é uma falha. É assim que a maioria das mentes humanas funciona.

Um estudo com pessoas que lutavam com crenças negativas sobre si mesmas descobriu que a defusão reduziu o quanto elas acreditavam nesses pensamentos e aumentou sua disposição para conviver com eles sem sofrimento, mais do que o questionamento de pensamentos tradicional.

Um estudo separado de repetição de palavras descobriu que trinta segundos dizendo rapidamente em voz alta uma palavra angustiante diminuiu tanto a credibilidade quanto o desconforto emocional mais do que a distração ou a supressão. O efeito se baseia numa observação com mais de um século: palavras perdem seu significado emocional através da repetição rápida, um fenômeno que os psicólogos chamam de saciedade semântica (Semantic Satiation).

Formas de se desenganchar

  • Dê nome ao processo. Diga "Eu percebo que estou tendo o pensamento de que não sou bom o suficiente" em vez de simplesmente pensar nisso. A distância extra transforma um veredicto em uma observação.
  • Repita até virar apenas som. Escolha a palavra que mais pesa e diga em voz alta, rapidamente, por trinta segundos. Perceba quando ela para de parecer um julgamento.
  • Agradeça à sua mente. Quando uma preocupação surgir, diga silenciosamente "Obrigado, mente." Reconhecer o pensamento sem se envolver nele pode interromper a espiral.

A defusão não promete que o pensamento vai parar de aparecer. Promete que o pensamento vai parar de mandar no show.

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Referências

  1. Masuda, A., Hayes, S. C., Sackett, C. F., & Twohig, M. P. (2004). Cognitive defusion and self-relevant negative thoughts: Examining the impact of a ninety year old technique. Behaviour Research and Therapy, 42(4), 477–485. https://doi.org/10.1016/j.brat.2003.10.008
  2. Masuda, A., Hayes, S. C., Twohig, M. P., Drossel, C., Lillis, J., & Washio, Y. (2009). A parametric study of cognitive defusion and the believability and discomfort of negative self-relevant thoughts. Behavior Modification, 33(2), 250–262. https://doi.org/10.1177/0145445508326259
  3. Larsson, A., Hooper, N., Osborne, L. A., Bennett, P., & McHugh, L. (2016). Using brief cognitive restructuring and cognitive defusion techniques to cope with negative thoughts. Behavior Modification, 40(3), 452–482. https://doi.org/10.1177/0145445515621488
  4. Hayes, S. C. (2004). Acceptance and commitment therapy, relational frame theory, and the third wave of behavioral and cognitive therapies. Behavior Therapy, 35(4), 639–665. https://doi.org/10.1016/S0005-7894(04)80013-3